Eu sou Thiago Cortez, o designer líder de Alagados, um jogo de gerenciamento de recursos e defesa de base. Em Alagados, os jogadores assumem o controle de espécies nativas do Alagado (Saguis, Calangos e Mutuns) em ambientes inspirados nos ecossistemas de Alagoas. O objetivo é lutar pela sobrevivência contra a ameaça das invasoras Raposas.

Mapa conceitual do universo de Alagados mostrando os povos nativos e os ecossistemas de Alagoas

Em 2025 fomos contemplados com o edital estadual da PNAB em Alagoas, onde inscrevemos o projeto Mitologias do Alagado, com intuito de expandir o horizonte de Alagados, transformando um jogo de simulação em uma experiência narrativa densa e culturalmente enraizada.

Nosso objetivo com este trabalho não foi apenas documentar mecânicas, mas registrar a essência e os mitos fundadores desse universo inspirado na riqueza de Alagoas. Queremos que o jogador compreenda como o Alagado surgiu e de que forma as tradições dos saquis, calangos e mutuns se entrelaçam com os ecossistemas que habitam.

Visão geral dos objetivos do projeto Mitologias do Alagado

Neste artigo, revelamos como as pesquisas de campo e a busca pela ancestralidade moldaram cada detalhe do nosso processo criativo. Prepare-se para descobrir como a realidade dos nossos manguezais, caatingas e matas se transmutou em uma mitologia épica e autenticamente brasileira.

1. Despertar: O Conceito do Projeto

O projeto Mitologias do Alagado é um desdobramento do jogo Alagados, cujo objetivo é expandir a narrativa original de simulação e gerenciamento de vilas, criando uma mitologia detalhada sobre a formação e essência do universo fictício.

Diagrama conceitual mostrando a estrutura narrativa e os pilares do universo de Alagado

Nossa missão principal foi estabelecer uma base textual e visual que explicasse como o Alagado surgiu e como os povos fictícios se originaram. O conceito central do projeto baseia-se em três pilares fundamentais:

Ancestralidade e Identidade: Buscamos criar um registro das lendas e mitos fundadores que moldaram a identidade de cada povo, proporcionando uma profundidade cultural e histórica que fundamenta o universo do jogo.

Conexão com o Ambiente: A narrativa explora como as tradições e crenças de cada espécie estão intrinsecamente entrelaçadas com os ecossistemas ao seu redor, refletindo a simbiose entre cultura e natureza.

Resistência e Autonomia: O projeto incorpora temas de resistência frente a opressões, inspirando-se em valores históricos das culturas alagoanas e nordestinas para narrar o conflito contra os invasores que buscam dominar a região com tecnologia avançada.

Ao documentar rituais, símbolos e histórias de criação, estabelecemos um acervo que não apenas enriquece a experiência do jogador, mas também permite futuras expansões desse universo, oferecendo uma perspectiva autenticamente brasileira sobre a criação de mitologias no contexto dos games.

2. Expedições: A Base Real da Fantasia

Para que o universo de Mitologias do Alagado tivesse alma, não bastava imaginar. Era preciso pisar na terra, cheirar o mangue e sentir o calor do sertão. Nosso processo criativo foi guiado por três expedições fundamentais aos ecossistemas de Alagoas, que serviram de alicerce para a construção dos povos e suas lendas.

Manguezal — Palateia

Nossa imersão no universo dos Saquis aconteceu na Lagoa do Roteiro, mais especificamente no Povoado de Palateia. Em uma visita guiada, fomos recebidos por um cenário de pequenas casas coloridas, onde cada residência ostenta uma placa com o nome de sua matriarca, inspiração para o sistema de governo feminino que atribuímos aos Saquis no jogo.

Povoado de Palateia na Lagoa do Roteiro — casas coloridas com placas das matriarcas, inspiração para os Saquis

Atravessamos de barco o canal que serpenteia por trás do povoado, navegando sob raízes gigantes que pareciam sustentar o mundo, e que serviram de referência para os mitos de criação dos Saguis. Na lagoa, conhecemos as criações de ostras. A expedição nos levou até uma ilha de descanso dos marisqueiros, onde provamos o contraste único entre o sabor das ostras e o mel local.

Passeio de barco pelo canal do manguezal com raízes gigantes — referência para os mitos de criação dos Saguis

Também visitamos o apiário que produz a famosa Própolis Vermelha, uma iguaria rara extraída da combinação de abelhas com a planta rabo-de-bugio, na transição entre o mangue e a mata atlântica. Essa cor vibrante e a raridade do produto foram as bases para o sistema de magia Colorista e o místico Mel Vermelho que os jogadores encontrarão no game.

Apiário de Própolis Vermelha — cor vibrante que inspirou o sistema de magia Colorista e o Mel Vermelho do jogo

Mata Atlântica — União dos Palmares

A expedição para fundamentar o povo Mutum foi uma jornada de reconexão com a resistência ancestral. No Parque Memorial Quilombo dos Palmares, guiados por Dandara, mergulhamos na história do maior reduto de liberdade das Américas. Visitamos as estruturas reconstruídas do antigo mocambo, como os edifícios de decisão política e os espaços comunitários de alimentação, que inspiraram a organização social horizontal dos Mutuns.

Parque Memorial Quilombo dos Palmares — estruturas reconstruídas do mocambo que inspiraram a organização social dos Mutuns

Vivenciamos a energia dos locais onde os quilombolas praticavam capoeira e música, elementos que transportamos para o jogo como rituais de preparação para o combate. Um momento marcante foi a descida à lagoa, um ponto sagrado onde até hoje são realizados rituais de religiões de matriz africana.

Local sagrado no Quilombo dos Palmares onde são realizados rituais de religiões de matriz africana

Complementando a pesquisa histórica, visitamos o Museu do Indígena Alagoano (UNEAL). Na primeira exposição, exploramos o legado das 12 etnias indígenas de Alagoas através de artefatos, pinturas e uma urna funerária de cerâmica (pote usado como caixão).

Museu do Indígena Alagoano (UNEAL) — artefatos e legado das 12 etnias indígenas de Alagoas

A segunda exposição revelou a genialidade do Quilombo do Muquém, com foco nas famosas esculturas de argila. Aprendemos a história por trás de "O Beijo", obra icônica da Mestra Irinéia, Patrimônio Vivo de Alagoas, e vimos como a arte de outros artesãos locais transforma o barro em símbolos de afeto e sobrevivência. Essa maestria com a cerâmica e a madeira foi a base para o design visual da tecnologia e das ferramentas utilizadas pelos Mutuns em sua luta contra a invasão das Raposas.

Esculturas de argila do Quilombo do Muquém — base para o design visual das ferramentas dos Mutuns

Caatinga — Piranhas

A jornada para o habitat dos Calangos começou com a transição visual da BR-316, onde o verde litorâneo de Maceió deu lugar gradualmente ao cinza-esbranquiçado do Sertão. Um fenômeno que nos marcou foi o "oásis" que surge nos arredores do Rio São Francisco, onde a aridez subitamente volta a ficar verde graças à força das águas, proporcionando uma primeira vista de Piranhas que é, sem dúvida, um dos momentos mais inigualáveis e memoráveis da expedição.

Vista de Piranhas às margens do Rio São Francisco — oásis verde em meio à aridez do sertão

Navegamos pelo Velho Chico até o povoado de Entremontes, um refúgio histórico famoso por suas rendas.

Povoado de Entremontes — refúgio histórico famoso pelas rendeiras às margens do Rio São Francisco

Após o almoço, seguimos para a Trilha do Angico, o local exato da emboscada final de Lampião em 1938. Subir a serra sob um calor intenso, atravessando uma vegetação áspera e fechada, enquanto ouvíamos os chocalhos do gado à distância, foi a base para descrevermos a "guerrilha do mato". O chão, forrado de pedras claras e secas, nos levou ao monumento com os nomes dos mortos e diversas faixas de incursões religiosas, evidenciando o sincretismo e o forte catolicismo da região.

Trilha do Angico — local da emboscada final de Lampião em 1938, com monumento aos mortos

Finalizamos o dia visitando uma casa réplica dos anos 30, repleta de móveis e utensílios da época, o que forneceu referências ricas para a mobília e o cotidiano das casas de taipa no jogo.

Casa réplica dos anos 1930 com móveis e utensílios de época — referência para as casas de taipa no jogo

À noite, o Centro Histórico de Piranhas nos presenteou com uma apresentação de Xaxado, a dança de guerra do cangaço cujo som "xa-xa-xa" das alpercatas arrastadas agora ecoa como a principal manifestação cultural dos Calangos no universo do Alagado.

Apresentação de Xaxado no Centro Histórico de Piranhas — dança de guerra do cangaço que inspirou os Calangos

3. Mitos: A Identidade dos Povos

A construção das lendas do Alagado mistura tradições, crenças e natureza. Cada povo reflete aspectos únicos da cultura alagoana, transformando biodiversidade em mitologia:

Mutuns

Inspirados pela imponência da Serra da Barriga, os Mutuns acreditam que as jaqueiras são pilares sagrados que sustentam os céus. Suas lendas narram que espíritos celestiais renunciaram à imortalidade, descendo pelos troncos dessas árvores e tornando-se corpóreos, ganhando penas, bicos e asas. Essa ancestralidade reflete-se em sua sociedade coletivista e nas casas de farinha, pilares de sua subsistência.

Concept art dos Mutuns — povo da Mata Atlântica com jaqueiras sagradas como pilares de sua civilização

Espionagem Aérea: Graças à sua biologia, os Mutuns possuem uma vantagem militar única: a visão do alto. Eles organizam cidades interligadas e, ao menor sinal de invasão, batem em retirada levando outras espécies para refúgios seguros.

Botânicos de Guerra: Quando as Raposas queimam as roças para tentar vencer pela fome, os Botânicos Mutuns entram em ação. Eles carregam sementes e grãos raros para reflorestar e garantir a biodiversidade genética, garantindo que a vida retorne após o conflito.

Adivinhos em Transe: Em tempos de guerra, os Adivinhos entram em rituais para consultar espíritos ancestrais sobre a localização exata das tropas inimigas, tornando-os quase impossíveis de serem pegos de surpresa.

Adivinhos em Transe dos Mutuns — visionários que consultam espíritos ancestrais em rituais de guerra

Saquis

Originários dos manguezais, como os observados em Palateia, os Saquis conectam-se espiritualmente com o rio e o mar. Sua divindade principal é Jaci, a deusa da Lua que rege as marés e presenteia o povo com o Sururu, cujas cascas arroxeadas são integradas à arquitetura como símbolo de proteção divina. Suas lendas falam de criaturas que nascem das raízes do mangue e da magia colorista das rendeiras, que tecem a história do povo no Filó do Alagado.

Referências visuais dos Saquis — povo do manguezal conectado espiritualmente com o rio e o mar

A Renda do Tempo: É o objeto mais sagrado deste povo. Tecida pela Grande Matriarca com fios encantados, ela não é apenas um adereço, mas um registro vivo da história. Dizem que quem a observa consegue sentir as emoções impressas pela tecelã.

Magia Colorista: Os Saguis não usam magia de forma abstrata, eles a extraem da natureza. Cada cor tem uma função: o Rosa limpa pensamentos ruins, o Verde acelera o crescimento de plantas e o Violeta é usado para transformar recursos em itens elaborados.

O Tabu dos Golens: Como acreditam que só a deusa Jaci pode dar a vida, os Saguis consideram a criação de seres animados (como golens de lama) um grande pecado, o que gera conflitos com as Raposas que usam tecnologia para automatizar tarefas.

Concept art do Golem dos Saquis — criatura tabu cuja criação é proibida pela crença em Jaci

Calangos

Adaptados ao clima árido de Piranhas, os Calangos possuem uma mitologia ligada ao mundo real e ao misticismo sertanejo. Suas histórias povoam o Rio São Francisco com o temido Surubim Rei e as Carrancas, usadas para espantar duendes das águas. A figura de Lamparina e a tradição do Xaxado e da Literatura de Cordel fundamentam uma cultura de resistência e sobrevivência sob o calor intenso.

Referências visuais dos Calangos — povo da caatinga com mitologia ligada ao Rio São Francisco e ao cangaço

O Bumba Formiga: O maior evento cultural deste povo é um auto que celebra a ressurreição de uma formiga gigante através de um aboio comovente.

Lamparina e os Anéis: O líder dos Calangos, Lamparina, é uma figura icônica. Ele usa seis anéis de pedras brilhantes que chama ironicamente de "anéis doutorais", afirmando ser bacharel em Leis, Cozinha e Cura pela "universidade da vida" no sertão.

Táticas de Invisibilidade: Os Calangos são mestres em desaparecer na paisagem seca. Eles usam Elixires para criar emboscadas mortais, atacando sempre pela retaguarda e fugindo antes de serem cercados.

Concept art das táticas de invisibilidade dos Calangos — mestres em emboscadas e guerrilha no sertão

Raposas

Representam o choque cultural e a exploração tecnológica. Suas intenções de domínio e a implantação da Transalagado servem como catalisador para os conflitos míticos e a união dos povos nativos em torno de sua ancestralidade comum.

Concept art das Raposas — facção invasora que representa o choque cultural e a exploração tecnológica

A Transalagado e a Monocultura: Representam o progresso industrial de Cales Portus através da construção de uma ferrovia de 200 km para exportar recursos. Diferente dos povos nativos, elas impõem a monocultura da cana-de-açúcar, o que devastou a biodiversidade da Mata Geral e causou graves crises alimentares.

O Teatro do Medo (Jaraguá): Utilizam a religião e o terror como ferramentas de controle. A personagem Elisa Brites confessa ter idealizado o mito do Jaraguá, uma criatura com caveira de raposa e manto disforme, para assombrar os Saguis e forçá-los a buscar a "proteção" da Igreja das Raposas.

Poderio Bélico e Visão Colonial: Operam sob uma monarquia rígida comandada pelo El-Rei, vendo-se como uma espécie superior destinada a "civilizar" o Alagado. Introduziram armas de pólvora, como canhões e arcabuzes, forçando a união dos povos nativos em uma guerrilha de resistência.

Concept art do poderio bélico das Raposas — canhões, arcabuzes e armas de pólvora colonial

4. Design: Do Papel para o Jogo

O processo de transformar as vivências de campo em um universo digital exigiu um esforço multidisciplinar de tradução visual e narrativa. Nesta etapa, consolidamos o conhecimento em três frentes principais:

Artes Conceituais e Identidade Visual: Desenvolvemos 15 artes conceituais que capturam a essência mística das criaturas e cenários. Baseamos o visual dos Saquis nas raízes aéreas do mangue, a imponência dos Mutuns na biologia das aves e nas habitações de ninhos elevados, e a resiliência dos Calangos em escamas resistentes e trajes encouraçados de couro de formiga.

O Documento de Design (Bíblia): Elaboramos um documento técnico que define como essa mitologia se reflete diretamente no gameplay. Por exemplo, o sistema de magia Colorista dos Saguis não é apenas um adereço visual, mas uma mecânica de jogo onde cores como o Amarelo aumenta a vitalidade e o Vermelho gera energia térmica.

Narrativa e Ancestralidade: Escrevemos a Bíblia Narrativa, explorando os mitos de criação e os conflitos fundamentais. Nela, detalhamos como o conhecimento metalúrgico dos Mutuns evoluiu de ferramentas agrícolas para o desenvolvimento de canhões através de engenharia reversa das armas das Raposas.

Todo esse material serve para garantir que cada ritual, símbolo ou estrutura presente no Alagado tenha um fundamento cultural autêntico, transformando a pesquisa em uma experiência de jogo imersiva e coerente.

Páginas do Design Bible e Narrative Bible de Alagado — documentação do game design e narrativa

5. Conclusão: Valorizando o Legado Local

O projeto Mitologias do Alagado é um esforço de preservação e valorização da cultura alagoana e nordestina. Ao longo deste processo, buscamos oferecer uma perspectiva brasileira única para a criação de mitologias em jogos, unindo temas de ancestralidade, resistência e conexão com o ambiente.

Este trabalho buscou:

Autenticidade Narrativa: Criar uma documentação rica que expresse as tradições e mitos brasileiros de forma profunda e acessível.

Acervo Cultural: Estabelecer uma base textual e visual detalhada que registre histórias de criação, símbolos e tradições dos povos Saquis, Calangos, Mutuns e Raposas.

Impacto e Inclusão: Garantir que este universo chegue a todos, implementando medidas de acessibilidade comunicacional, como textos adaptados para leitores de tela e descrições alternativas para as artes conceituais.

Concept art de acessibilidade do jogo Alagado — design inclusivo com descrições alternativas

Esperamos que este mergulho nos bastidores tenha revelado como a riqueza natural de Alagoas pode ser a semente para universos fantásticos nos games. O projeto Mitologias do Alagado foi contemplado pelo edital da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) - Ciclo 1, através da Secretaria de Estado da Cultura e Economia Criativa de Alagoas (SECULT-AL).

Logos dos apoiadores: Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), Secretaria de Estado da Cultura e Economia Criativa, Governo de Alagoas, Ministério da Cultura e Governo Federal do Brasil